Em Escuta


Laurie Anderson – Only An Expert
Outubro 12, 2009, 8:59 pm
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Nesse dia as máquinas desertaram. Deixaram para trás as carcaças, abandonaram-nas aos dedos nervosos do mestre, e seguiram estrada fora sem hesitar.

Na realidade nao foi bem assim.

Estava a viagem sensivelmente a meio e já a grande confusao estava instalada.

Nem sei bem porque é que digo que estava a viagem a meio.  As máquinas tinham propósitos e destinos diferentes. Nao tendo chegado a consenso umas decidiram seguir sozinhas o seu caminho, e seguiram, determinadas e desacompanhadas, enquanto outras, nao disfarçando a desilusao estampada no rosto, foram regressando, voltando a ocupar os seus postos.

O til, esse, ficou amuado. Queria ir para Espanha, e nenhum dos seus companheiros de teclado se mostrou solidário. Agora recusa-se a fazer companhia a quem quer que seja, excepto ao seu amigo n, e lá ficou, assim:

Ñ



Brigada Vitor Jara – Cantiga Bailada
Junho 16, 2009, 2:39 pm
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Não sou muito dado a comemorar aniversários, e a grande maioria das efemérides passa-me ao lado. No meio do aparente abandono a que este espaço tem estado votado, apercebo-me agora que guardo aqui canções desde Março de 2008.

Olho para isto como a sala que continua desarrumada, onde me sinto verdadeiramente em casa, mas onde conheço todas as rachas da parede, as pilhas de livros que nunca estarão arrumados, o espaço que teimo em guardar para coisas que nunca o vão ocupar.

Neste ano e pouco juntaram-se 68 canções nesta compilação. A contagem de posts não reflete o mesmo número porque pelo meio aparece uma repetida – às vezes demoramos a perceber o quanto algumas coisas nos marcam.

Todas elas têm histórias para contar, umas são velhas amigas e um ombro a que regressamos vezes sem conta. Outras passaram por aqui, e não sabemos se um dia vão regressar. Não podemos dizer se são estrela cadente ou cometa, se traçam um efémero risco no céu, que corre o risco de passar despercebido, ou se preparamos o seu regresso no calendário.

Neste dia de balanços há uma nota que me agrada. Fui ver as estatísticas das canções mais ouvidas, e o resultado é este:

1. José Mário Branco – Canto dos Torna Viagem
2. Filarmónica Fraude – O Menino
3. Raimundo Fagner e Chico Buarque – A Aurora
4. José Mário Branco – Emigrantes da Quarta Dimensão (Carta a J.C.)
5. Fausto – A Memória dos Dias

E estas não são nem estrelas cadentes, nem cometas. São rugas que nos vão aparecendo na cara, sorrisos da pessoa que amamos, gargalhada de um miúdo de nove anos, o conforto de dezanove de vida vivida, que se separam automaticamente no conjunto dos trinta e seis.

São das coisas da nossa vida que não nos importamos de partilhar, de dizer em voz alta, e que, felizmente, não precisamos de agradecer.

Tenho à minha janela
Eras tão bonita e eu já te não quero
O que tu não tens à tua
O que tu não tens à tua

Um vaso de manjerico
Eras tão bonita e eu já te não quero
Que dá cheiro a toda à rua
Que dá cheiro a toda à rua

Adeus ó rua da ponte
Eras tão bonita e eu já te não quero
Calçadinha mal sigura
Calçadinha mal sigura

E quando o meu Amor passa
Eras tão bonita e eu já te não quero
Não há pedra que não bula
Não há pedra que não bula
Ó lai ó larilolela, ó lai ó larilolo
Ó lai ó larilolela, ó lai ó larilolo

As pedras do meu balcão
Eras tão bonita e eu já te não quero
Estão todas a três a três
Estão todas a três a três

Os meus amores de algum dia
Eras tão bonita e eu já te não quero
Já cá os tenho outra vez
Já cá os tenho outra vez



Simon and Garfunkel – Homeward Bound
Abril 17, 2009, 10:18 am
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Por mais interessantes que sejam os desafios, por mais absorvente que seja o quotidiano fora do lugar, por melhor que seja a sensação de viver novo mundo, há sempre um dia em que nada é mais importante que o regresso. Em que nada nos desvia os olhos do relógio, que roda devagar a subir as escadas, por entre aquele zumbido que cheira a combustível, a má comida que não conseguimos evitar, a pressão nos ouvidos que aumenta a ansiedade do momento em que aterramos em direcção a casa.

“Where my love lies waiting silently for me”

(em loop entre aqui e ali)

I’m sitting in the railway station
Got a ticket for my destination
On a tour of one-night stands my suitcase and guitar in hand
And ev’ry stop is neatly planned for a poet and a one-man band

Homeward bound,
I wish I was,
Homeward bound,
Home where my thought’s escaping,
Home where my music’s playing,
Home where my love lies waiting
Silently for me

Ev’ry day’s an endless stream
Of cigarettes and magazines.
And each town looks the same to me, the movies and the factories
And ev’ry stranger’s face I see reminds me that I long to be,

Homeward bound,
I wish I was,
Homeward bound,
Home where my thought’s escaping,
Home where my music’s playing,
Home where my love lies waiting
Silently for me

Tonight I’ll sing my songs again,
I’ll play the game and pretend
But all my words come back to me in shades of mediocrity
Like emptiness in harmony I need someone to comfort me
Homeward bound,
I wish I was,
Homeward bound,
Home where my thought’s escaping,
Home where my music’s playing,
Home where my love lies waiting
Silently for me
Silently for me



Robert Wyatt – Sea Song
Abril 4, 2009, 4:57 pm
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Nos dias de inverno o mar sente que foi abandonado e revolta-se. Qual velho vagabundo zangado com a vida passa meses a urrar, fingindo ignorar os poucos que insistem em não o largar, que continuam a procurar nele alimento para a alma. Esbraceja, furiosamente, repetindo palavras sem sentido aparente e respingado tudo à sua volta. O seu cheiro torna-se impossível de disfarçar. Tudo nele é exuberância e exagero.

Há dias em que se torna impossível não desejar esse mar, trocar tudo por poder estar esquecido na areia a imaginar formas na espuma, a sentir os salpicos na cara, a arrefecer o cérebro e aquecer a alma. Há dias em que o mundo podia ser aquele pequeno quadrado de areia grossa em que enterramos os pés descalços.

Há dias em que só coisas enormes nos podem salvar e ser cura, o que vale é que elas existem.

You look different every time you come
From the foam-crested brine
Your skin shining softly in the moonlight
Partly fish, partly porpoise, partly baby sperm whale
Am I yours? Are you mine to play with?
Joking apart – when you’re drunk you’re terrific when you’re drunk
I like you mostly late at night you’re quite alright
But I can’t understand the different you in the morning
When it’s time to play at being human for a while
Please smile!

You’ll be different in the spring, I know
You’re a seasonal beast like the starfish that drift in with the tide
So until your your blood runs to meet the next full moon
You’re madness fits in nicely with my own
Your lunacy fits neatly with my own, my very own
We’re not alone



Seu Jorge – Life on Mars
Abril 2, 2009, 9:56 am
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Fugir para Marte seria a pior das soluções para qualquer problema. Reparem que eu tenho agora um curso intensivo de terra vermelha e de água engarrafada para lavar os dentes e passar pela cara depois de fazer a barba, e de comida a que mais tarde ou mais cedo se deixa de perguntar a origem, e que sabe todos os dias ao mesmo.

Mas ainda assim aquilo deve ser um bocado mais difícil do que a vida no imenso Sul. Em Marte não há putos a correr na rua, não há povo a dançar em grande algazarra à porta dos bares, não há gente de sorriso aberto e voz com tempo para tentar explicar uma vida que às vezes parece impossível, não há o cheiro a terra húmida que anuncia a chuva que depois cai como se não houvesse amanhã.

É certo que em Marte também não há pilhas de lixo que parecem nunca desaparecer, bairros onde dificilmente imaginamos poder haver vida, o cheiro constante a gasóleo queimado, o barulho dos geradores que se reproduzem por quintais e pátios.

Mas não apaixona o que é simples e não consigo crescer dentro de uma bolha de plástico que me isole do mundo. Nem o quero conhecer num jogo de toca e foge, num conjunto de cartões postais comprados a correr. Quero sentir-me a terra, e saber onde estou, não quero reproduzir o meu mundo mundo fora. Quero chocar de frente com a realidade, sentir a chuva a cair-me em cima, chegar a casa coberto de pó, poder lutar para não ser diferente dos que partilham este pedaço de mundo comigo.

Eu não quero viver em Marte, sozinho.

Muitas vezes o coração
Não consegue compreender
O que a mente não faz questão
Nem tem forças pra obedecer
Quantos sonhos já destruí
E deixei escapar das mãos
Se o futuro assim permitir
Não pretendo viver em vão

Meu amor não estamos sós
Tem um mundo a esperar por nós
No infinito do céu azul
Pode ter vida em Marte

Então, vem cá me dá a sua língua
Então vem, eu quero abraçar você
Seu poder vem do sol
Minha medida
Meu bem, vamos viver a vida
Então vem, senão eu vou perder quem sou
Vou querer me mudar para uma life on mars



Linha Geral – Ousadia
Março 9, 2009, 11:27 pm
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O Manel um dia ousou por à prova a sua credibilidade como fotógrafo e usar uma exposição demasiado longa para fotografar a sua rua, ainda mais não tendo o suporte que um bom tripé lhe daria. Claro que o melhor elogio que conseguiu foi: “Que linda fotografia Manel, é o mar”? Isto diz pouco das suas capacidades como fotógrafo e muito da crueldade de um bando de putos com uma barba mal semeada.

Era tão fácil incensar a poesia (não sei precisar isto porque o tempo não a preservou) de um tipo que tinha percorrido todo o caminho até ao DN Jovem e esquecer os esforço de quem estava ali ao nosso lado. E ao mesmo tempo era muito fácil achar tão genial um arroto fora do tempo que nos queria parecer provocação nihilista e na realidade era apenas um hino ao almoço pesado.

Hoje seria fácil dizer que a falta de critério e de concorrência nos desleixou, e que a mão protectora de alguns iluminados nos fez pensar que não seria preciso trabalhar, ler, escrever, deitar fora, reler, reescrever. Mas esse dias em que uma Larva tentava sobreviver ao manto pesado que abafava um rádio que vomitava música clássica sem controlo de volume, têm hoje tanto de ridículo, de risível, como de sonho que ainda hoje faz com que algo se mexa e dê vontade de pegar no baú. E garanto-vos que, no dia em que um dos filhos desse verme o quiser fazer (e o baú dele fechou-se há demasiados anos), haverá ali muito para nos fazer suster a respiração. E não estou, obviamente, a falar de mim.

(e temos pena se não há transcrições da letra na internet e se a voz torturada do vocalista se presta a alguma cacofonia).

Riso, outro riso mais aberto,
Outro canto mais sentido,
Outros gestos, outra voz

Outro golpe mais ousado,
Outro dia mais liberto,
Mais sereno e soalheiro

Outro canto, mais revolto
Mais aceso, mais aceso
Outros espelhos, outra glória

Rumos, outros rumos e perigos,
Outro mar desconhecido,
Outras sombras, outra luz,

Outros hinos, mais vibrantes,
Outros sonhos, e esperanças,
Outros céus e claridades

Outro canto mais revolto,
Mais aceso, mais aceso,
Outros prantos, outra glória

Faremos do medo, ousadia,
Da noite, manhã claro
Do fado, outro destino
Do terror, alegria



Feromona – Mustang
Fevereiro 27, 2009, 3:35 pm
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O ouvido colado ao rádio e um dedo nervoso em cima do gravador eram reflexo da necessidade. A música que por cá se fazia podia chegar-nos aos olhos, em letra impressa, meses antes de ouvirmos um simples acorde ou um respirar de voz. Quando o sono ou os nervos faziam o dedo falhar perdia-se o momento, e adiava-se até ao próximo dia em que se conseguia receber a rádio sem chuva e ruído.

Antes de ouvir era normal já termos opinião formada sobre uma banda, ou até (sim, não estou a exagerar) adivinhar qual era tentando fazer corresponder o som e a descrição (correndo aqui alguns riscos). A partir daí pouco mais sobrava que confirmar ou desmentir essa pré-impressão, comprar o disco ou convencer um amigo a comprar se tal fosse possível.

A mim fazia-me sempre falta ouvir em cima de um palco. Sonhava acordado com o Rock Rendez-Vous, que ficava demasiado longe, e para o qual era demasiado novo. Mal sabia que esse mito também iria morrer. A ideia de estar com meia dúzia de gatos a pingar das suas gabardines, numa sala a ouvir bandas medíocres em catadupa, arrepia-me e até me assusta. Mesmo sabendo que no meio delas poderiam estar uns outros Pop Dell’Arte ou Mler Ife Dada.

Hoje é mais fácil fazer todo o tipo de triagens, reduzir o espaço de tempo entre ler sobre alguém e ouvir, ou mesmo inverter esta ordem. Mas nada nos impede de deixar coisas em banho-maria durante demasiado tempo.

Este é um exemplo claro. Não foi por falta de aviso, mas sim por falta de fé. Mexer em algo que já foi tão visto, revisto, refeito, e tantas vezes enterrado, pode ter este efeito. Um tipo empina o nariz e enche o peito de ar, passando facilmente ao lado de uma das mais deliciosas gravações de rock português que me passaram pelos ouvidos.

Tal como há 20 anos, saber isto só aguça a curiosidade, de perceber como funciona esta “Vida a Direito” num palco, com público, calor, luzes, suor.

Fosse eu dessas coisas e acabava isto com um “em breve vou saber, se deus quiser”.

Sai para o trabalho, acredita que tem de ser assim
Tira a ramela do olho, põe o carro a vibrar
Sonha que tem um Mustang, e hoje é o Steve McQueen
Como um rebelde nervoso faz as rodas chiar

Só precisa de uma história que justifique o fim
Qualquer coisa muito heróica para ninguém duvidar
Que ele é capaz, que ele é diferente
Corre veloz e contente, e a vida vai mudar

Coisas que viu no cinema
E que inspiraram milhões, ele não é excepção
Imagina cada cena, estremece
Está a gostar do guião

Roda o volante e transpira, será herói ou vilão
O bom da fita nem sempre tem um final feliz
Mas quem é protagonista deve ter sua canção
Com melodia vincada e uma letra que diz

Que ele é capaz, que ele é diferente
Corre veloz e contente, e a vida vai mudar
Mas tem azar, choca de frente
Com um camionista imprudente, nem conseguiu travar

E nada disto é cinema,
Já não existem heróis, ele não é excepção
pelo desfecho da cena, parece
morreu sem consagração



Tinariwen – Tamatantelay
Fevereiro 25, 2009, 12:29 pm
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Mesmo sabendo que não existe uma África única, mesmo sabendo dos abismos escavados pela língua, as religiões, o clima … mesmo descontando isso tudo não há nada, por mais forte que possa parecer, que desmanche este elo mental que me deixa ver surreais guerrilheiros tuaregues a caminhar pelas picadas da Barra do Kwanza ao som destas guitarras.



The Four Tops – Reach Out I’ll Be There
Fevereiro 21, 2009, 12:14 am
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(…)

 

 

Now if you feel that you can’t go on (can’t go on)
Because all of your hope is gone (all your hope is gone)
And your life is filled with much confusion (much confusion)
Until happiness is just an illusion (happiness is just an illusion)
And your world around is crumbling down, darlin
reach out come on girl reach on out for me
reach out reach out for me
I’ll be there with a love that will shelter you
I’ll be there with a love that will see you through

When you feel lost and about to give up (to give up)
Cause your life just ain’t good enough (just ain’t good enough)
And your feel the world has grown cold (has grown cold)
And your drifting out all on your own (drifting out on your own)
And you need a hand to hold, darlin
reach out come on girl reach out for me
reach out reach out for me
I’ll be there to love and comfort you
And I’ll be there to cherish and care for you

I’ll be there to always see you through
I’ll be there to love and comfort you
I can tell the way you hang your head (hang your head)
Your not in love now, now your afraid (you’re afraid)
And through the tears you look around (look around)
But there’s no piece of mind to be found (no piece of mind to be found)
I know what your thinking,

You’re alone now, no love of your own, but darling
reach out come on girl reach out for me
reach out reach out………. just look over your shoulder
I’ll be there to give you all the love you need
And I’ll be there you can always depend on me
I’ll be there to always see you through
I’ll be there to love and comfort you



I See Rowboats – Begging For It
Fevereiro 20, 2009, 11:17 am
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Às vezes amo a música com o mesmo desespero como que dou por mim a procurar um cigarro que sei perdido no fundo de uma gaveta e que a um dado momento sei que me pode salvar a vida.

Havendo tempo e sossego (ou desassossego) gosto de agarrar na pilha que o tempo foi atirando para o disco rígido e escolher uma coisa ao calhas, pelo nome. Grande parte das vezes, desorganizado como sou, já nem me lembro como é que aquilo foi ali parar, quem referenciou, se foi a capa que me chamou a atenção ou alguma referência mais ou menos obscura algures na internet, num jornal ou revista.

E depois acontece, num desassossegado dia solarengo, ser assaltado por mais uma banda de guitarras (ó suprema felicidade), de ritmos cortados quase circulares, de coros assombrados.

E, podendo, não me resta mais que ficar em volta deste crescendo de quase seis minutos que ameaça e não cumpre, e que, provavelmente, em breve continuará esquecido, arquivado na letra I.

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