Viveram assim anos e anos, todos as sextas feira largavam a prisão verde para a trocarem pelo subúrbio natal. Eram novos, suficientemente novos para serem solteiros e dependerem das mães para lhes lavarem uma semana de roupa com trabalho diário e divertimento ocasional pela noite dentro.
Se quiserem levar a coisa pelo lado romântico imaginem o Oeste dos filmes de Cowboys, se quiserem a realidade imaginem um buraco no meio do nada, onde qualquer ideia de diversão terminava num café nocturno com cheirinho, ou nos braços de uma alternadeira com a qual podiam trocar mágoas e saudades de vidas passadas.
Naqueles pinhais, a sexta-feira significava-lhes liberdade. O meu Domingo, de depressão profunda para alguns, muitas vezes (pareciam sempre vezes a menos) era de profunda excitação pela chegada das encomendas.
Nesses domingos de encomendas aguardávamos ansiosamente a chegada do autocarro, eu e o Celso. Os discos eram escolhidos pelas páginas da “Capital”, do “Expresso”, ocasionalmente do 7ete. Não eram as nossas escolhas, eram as nossas apostas. Era preciso descodificar o discurso do crítico para perceber se valia a pena gastar um mês de economias num disco. A solução na altura era única. Não havia uma única loja de discos naquele pinhal – a única que depois existiu chamava-se, sem qualquer surpresa, Lisboa Rock.
A escolha, de certeza bem espremida entre as várias recensões religiosamente guardadas, estava feita – The Triffids – Born Sandy Devotional. Só que, algures entre o desfasamento do discurso crítico, o empenho do comprador em trazer alguma coisa, e um mercado de importações que ainda dava os seus primeiros passos, o que me chega às mãos é o In The Pines. Eu não conhecia nenhum dos dois discos, mas não era aquele que tinha sido incensado pelo crítico.
A fase seguinte era correr para um gira-discos para o ouvir, com a frustração de ser Domingo, de ter já passado a hora de jantar, de ser véspera de dia de escola, de ter estado o fim-de-semana inteiro no meio daquele pinhal à espera do estúpido autocarro.
Mal sabia eu na altura que não havia o que desconfiar de algo assinado pelos Triffids. Mal sabia eu que a Austrália que me chegava dentro daquela capa verde ia moldar para todo o sempre a minha visão da Pop. Pouca consciência tinha eu da importância dos Go-Betweens, do Nick Cave. Mal sabia eu, no meio daquele pinhal.
In the pines in the pines
Where the sun never shines
Where we go running when we want to hide
Away from the sky away from the light
Where the overgrown branches conceal what’s inside
In the pines in the pines
Where i take my brideNo place is darker
And no place more still
We make love in the pines
In the shadow of the hill
I’m left with your name
I’m left with your form
Left with your scent
Even left with your moans
And I’m left in this fine and private place
In the pines in the pines
We meet face to faceIn the pines in the pines
Where the sun never shines
Where we go running when we want to hide
Away from the sky away from the light
Where the overgrown branches conceal what’s inside
In the pines in the pines
Where i take my bride
3 Comentários até agora
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how indie can that be?
Comentário por menina-alice Abril 5, 2008 @ 10:54 pmNão é indie, é rural
Comentário por Pedro Abril 5, 2008 @ 11:00 pmseja o que for.. o que eu gosto de te ler
Comentário por salamandrine Abril 6, 2008 @ 12:48 pm