Fui criado no Alentejo numa terra com história cravada na África colonial.
Cresci por isso mais perto das acácias em flor, do cheiro da mata após uma chuvada tropical, da caça que se fazia e inventava.
Raros eram os velhos que sabiam contar aqueles antigos arrozais, raros os que conheciam os limites da lagoa, os que reconheciam o cheiro do poejo e o sabor das beldroegas. As histórias da minha terra estavam nas esplanadas de Lourenço Marques e na frenética vida de Luanda, não estavam nas tascas e casas de pasto onde se encerrava o dia passado no campo a tratar o gado, a tomar conta da terra.
Vivia-se um tempo que não podia existir, que era injustificável à luz da recém-revolução, que a consciência da exploração do homem pelo homem tinha tornado reprovável. Vivia-se um tempo que é aqui cantado de uma forma sublime, naquela que é a maior homenagem que alguém poderia ter feito ao Fausto.
Foi no sulco da viagem
Já sem armas nem bagagem
Nem os brazões da equipagem
Foi ao voltarPátria moratória
No coração da História
Que consumiste a glória
Num jantarFoi como se Portugal
P’ra seu bem e p’ra seu mal
Andasse em busca dum final
P’ra começarÁvida violência
Reverso de inocência
Sal da inconsciência
Que há no marImpério tão pequenino
De portulano caprino
Bolsos de sina e de sino
Em cada mãoPátria imaginária
De consistência vária
Afirmação diária
Do teu nãoAs malas dos portugueses
São como os olhos das rezes
Que se mastigam três vezes
Em cada chãoCândida ignorância
Grande desimportância
Os frutos da errância
Já lá vãoAi Senhora dos Navegantes me valei
De África, do sal e do mar só eu sobrei
Foi p’ra me encontrar que amanhã já me perdi
Longe vai o tempo em que eu já não estou aquiAi Senhora dos Talvez-Muitos-Mais-Sinais
Socorrei estes desperdícios coloniais
Foi na noite fria que o dia me cegou
Inda agora fui, inda agora cá não estouAi Senhora dos Esquecidos me lembrai
O caminho que p’ra lá vem e p’ra cá vai
Etecetra e tal, Portugal é nós no mar
Inda agora vim e estou longe de chegarAi Senhora dos Meus Iguais que eu subtraí
Foi pataca a mim e não foi pataca a ti
Se é tão grande a alma na palma do meu ser
Algum dia eu vou finalmente acontecerPorque não tentar outro ponto de vista
A história dos outros, quem a contará
Se qualquer colónia sem colonialista
São os que já estavam láTentemos então ver a coisa ao contrário
Do ponto de vista de quem não chegou
Pois se eu fosse um preto chamado Zé Mário
Eu não era quem eu souOs navegadores chegaram cá a casa
E foi tudo novo p’ra eles e p’ra mim
A cruz e a espada e os olhos em brasa
Porque me trataste assim ?Não é culpa nossa se quem p’ra cá veio
Não se incomodou ao saber do horror
A História não olha a quem fica no meio
E o que foi é de quem fôr
2 Comentários até agora
Publicar um comentário
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <pre> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>
RSS - Posts




[...] José Mário Branco – Canto dos Torna Viagem 2. Filarmónica Fraude – O Menino 3. Raimundo Fagner e Chico Buarque – A Aurora 4. [...]
Pingback por Brigada Vitor Jara – Cantiga Bailada « Em Escuta Junho 16, 2009 @ 5:23 pmUm hino….. alimento para alma!
Comentário por cristina P. Agosto 30, 2009 @ 4:02 pmObrigada Zé Mário… por cantares Fausto!