Gostava um dia de ser capaz de vos conseguir agradecer. De ser capaz de fazer justiça a tudo o que, mesmo sem saberem muito bem porquê, nunca foram capazes de deixar marcado em mim – como o ferro que, em brasa, torna cada bezerro refém do seu criador.
O tempo, felizmente, afasta-me a cada dia que passa do ser esmagado pela culpa e pela dívida. O tempo, a cada dia que passa, torna-me apenas responsável por propagar essa herança, por tentar semear pontes de liberdade para o futuro, por tentar apagar todos os resquícios de dívida pela culpa inglória de todos os males do mundo.
No meu futuro – feliz – há apenas um homem capaz de ser melhor, sem olhar para trás, a todos os passos, à procura dos que ficaram mal marcados na fina poeira que os dias foram deixando.
Dá-me uma ajuda, ó médico das almas
Para escolher em que combate combater
Quem condeno eu à vida
Quem condeno eu à morte
Que me podes tu dizerEncostado à árvore do tempo
Folhas vivas, folhas mortas, estações
Nada disto faz sentido
E o sentido do sentido não paga as refeiçõesEste torpor só tem uma solução
Sejamos deuses, é meter as mãos à obra
E no fazendo acontecendo
Deixar ir o coração
Que é o que nos sobraAo fazer-se o mundo nasce de si próprio
Ser avô é uma alegria atravessada
Dá para rir e p’ra chorar
Não temos nada com isso
E nada não é nadaDisseste um dia que tudo vale a pena
Tornar as almas mais pequenas é que não
Vamos sobre as duas patas
Juntar as partes da antena
Espalhadas pelo chãoFecha a porta que vem frio lá de fora
Diz o coxo ao despernado, e eu aqui
Fui à procura de mim
Encontrei-me mesmo agora
E ainda não fugiO tempo corre por entre pívias e manhas
E tudo fica cada vez mais como está
Mas ao correr desta pena
Não fico à espera que venhas
Eu já sou o que virá
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