Arquivado em: Feromona | Tags: ai as guitarras, descobertas tardias, paixões recentes
O ouvido colado ao rádio e um dedo nervoso em cima do gravador eram reflexo da necessidade. A música que por cá se fazia podia chegar-nos aos olhos, em letra impressa, meses antes de ouvirmos um simples acorde ou um respirar de voz. Quando o sono ou os nervos faziam o dedo falhar perdia-se o momento, e adiava-se até ao próximo dia em que se conseguia receber a rádio sem chuva e ruído.
Antes de ouvir era normal já termos opinião formada sobre uma banda, ou até (sim, não estou a exagerar) adivinhar qual era tentando fazer corresponder o som e a descrição (correndo aqui alguns riscos). A partir daí pouco mais sobrava que confirmar ou desmentir essa pré-impressão, comprar o disco ou convencer um amigo a comprar se tal fosse possível.
A mim fazia-me sempre falta ouvir em cima de um palco. Sonhava acordado com o Rock Rendez-Vous, que ficava demasiado longe, e para o qual era demasiado novo. Mal sabia que esse mito também iria morrer. A ideia de estar com meia dúzia de gatos a pingar das suas gabardines, numa sala a ouvir bandas medíocres em catadupa, arrepia-me e até me assusta. Mesmo sabendo que no meio delas poderiam estar uns outros Pop Dell’Arte ou Mler Ife Dada.
Hoje é mais fácil fazer todo o tipo de triagens, reduzir o espaço de tempo entre ler sobre alguém e ouvir, ou mesmo inverter esta ordem. Mas nada nos impede de deixar coisas em banho-maria durante demasiado tempo.
Este é um exemplo claro. Não foi por falta de aviso, mas sim por falta de fé. Mexer em algo que já foi tão visto, revisto, refeito, e tantas vezes enterrado, pode ter este efeito. Um tipo empina o nariz e enche o peito de ar, passando facilmente ao lado de uma das mais deliciosas gravações de rock português que me passaram pelos ouvidos.
Tal como há 20 anos, saber isto só aguça a curiosidade, de perceber como funciona esta “Vida a Direito” num palco, com público, calor, luzes, suor.
Fosse eu dessas coisas e acabava isto com um “em breve vou saber, se deus quiser”.
Sai para o trabalho, acredita que tem de ser assim
Tira a ramela do olho, põe o carro a vibrar
Sonha que tem um Mustang, e hoje é o Steve McQueen
Como um rebelde nervoso faz as rodas chiarSó precisa de uma história que justifique o fim
Qualquer coisa muito heróica para ninguém duvidar
Que ele é capaz, que ele é diferente
Corre veloz e contente, e a vida vai mudarCoisas que viu no cinema
E que inspiraram milhões, ele não é excepção
Imagina cada cena, estremece
Está a gostar do guiãoRoda o volante e transpira, será herói ou vilão
O bom da fita nem sempre tem um final feliz
Mas quem é protagonista deve ter sua canção
Com melodia vincada e uma letra que dizQue ele é capaz, que ele é diferente
Corre veloz e contente, e a vida vai mudar
Mas tem azar, choca de frente
Com um camionista imprudente, nem conseguiu travarE nada disto é cinema,
Já não existem heróis, ele não é excepção
pelo desfecho da cena, parece
morreu sem consagração
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e hoje é o Steve McQueen
O princípio disto lembra-me o princípio disto: http://www.youtube.com/watch?v=KNU2nOo1EwM
Podes bater na ceguinha.
Comentário por menina_Alice Fevereiro 27, 2009 @ 4:20 pm