Em Escuta


Feromona – Mustang
Fevereiro 27, 2009, 3:35 pm
Arquivado em: Feromona | Tags: , ,

O ouvido colado ao rádio e um dedo nervoso em cima do gravador eram reflexo da necessidade. A música que por cá se fazia podia chegar-nos aos olhos, em letra impressa, meses antes de ouvirmos um simples acorde ou um respirar de voz. Quando o sono ou os nervos faziam o dedo falhar perdia-se o momento, e adiava-se até ao próximo dia em que se conseguia receber a rádio sem chuva e ruído.

Antes de ouvir era normal já termos opinião formada sobre uma banda, ou até (sim, não estou a exagerar) adivinhar qual era tentando fazer corresponder o som e a descrição (correndo aqui alguns riscos). A partir daí pouco mais sobrava que confirmar ou desmentir essa pré-impressão, comprar o disco ou convencer um amigo a comprar se tal fosse possível.

A mim fazia-me sempre falta ouvir em cima de um palco. Sonhava acordado com o Rock Rendez-Vous, que ficava demasiado longe, e para o qual era demasiado novo. Mal sabia que esse mito também iria morrer. A ideia de estar com meia dúzia de gatos a pingar das suas gabardines, numa sala a ouvir bandas medíocres em catadupa, arrepia-me e até me assusta. Mesmo sabendo que no meio delas poderiam estar uns outros Pop Dell’Arte ou Mler Ife Dada.

Hoje é mais fácil fazer todo o tipo de triagens, reduzir o espaço de tempo entre ler sobre alguém e ouvir, ou mesmo inverter esta ordem. Mas nada nos impede de deixar coisas em banho-maria durante demasiado tempo.

Este é um exemplo claro. Não foi por falta de aviso, mas sim por falta de fé. Mexer em algo que já foi tão visto, revisto, refeito, e tantas vezes enterrado, pode ter este efeito. Um tipo empina o nariz e enche o peito de ar, passando facilmente ao lado de uma das mais deliciosas gravações de rock português que me passaram pelos ouvidos.

Tal como há 20 anos, saber isto só aguça a curiosidade, de perceber como funciona esta “Vida a Direito” num palco, com público, calor, luzes, suor.

Fosse eu dessas coisas e acabava isto com um “em breve vou saber, se deus quiser”.

Sai para o trabalho, acredita que tem de ser assim
Tira a ramela do olho, põe o carro a vibrar
Sonha que tem um Mustang, e hoje é o Steve McQueen
Como um rebelde nervoso faz as rodas chiar

Só precisa de uma história que justifique o fim
Qualquer coisa muito heróica para ninguém duvidar
Que ele é capaz, que ele é diferente
Corre veloz e contente, e a vida vai mudar

Coisas que viu no cinema
E que inspiraram milhões, ele não é excepção
Imagina cada cena, estremece
Está a gostar do guião

Roda o volante e transpira, será herói ou vilão
O bom da fita nem sempre tem um final feliz
Mas quem é protagonista deve ter sua canção
Com melodia vincada e uma letra que diz

Que ele é capaz, que ele é diferente
Corre veloz e contente, e a vida vai mudar
Mas tem azar, choca de frente
Com um camionista imprudente, nem conseguiu travar

E nada disto é cinema,
Já não existem heróis, ele não é excepção
pelo desfecho da cena, parece
morreu sem consagração


1 Comentário até agora
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e hoje é o Steve McQueen

:D

O princípio disto lembra-me o princípio disto: http://www.youtube.com/watch?v=KNU2nOo1EwM

Podes bater na ceguinha. :P

Comentário por menina_Alice




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