O Manel um dia ousou por à prova a sua credibilidade como fotógrafo e usar uma exposição demasiado longa para fotografar a sua rua, ainda mais não tendo o suporte que um bom tripé lhe daria. Claro que o melhor elogio que conseguiu foi: “Que linda fotografia Manel, é o mar”? Isto diz pouco das suas capacidades como fotógrafo e muito da crueldade de um bando de putos com uma barba mal semeada.
Era tão fácil incensar a poesia (não sei precisar isto porque o tempo não a preservou) de um tipo que tinha percorrido todo o caminho até ao DN Jovem e esquecer os esforço de quem estava ali ao nosso lado. E ao mesmo tempo era muito fácil achar tão genial um arroto fora do tempo que nos queria parecer provocação nihilista e na realidade era apenas um hino ao almoço pesado.
Hoje seria fácil dizer que a falta de critério e de concorrência nos desleixou, e que a mão protectora de alguns iluminados nos fez pensar que não seria preciso trabalhar, ler, escrever, deitar fora, reler, reescrever. Mas esse dias em que uma Larva tentava sobreviver ao manto pesado que abafava um rádio que vomitava música clássica sem controlo de volume, têm hoje tanto de ridículo, de risível, como de sonho que ainda hoje faz com que algo se mexa e dê vontade de pegar no baú. E garanto-vos que, no dia em que um dos filhos desse verme o quiser fazer (e o baú dele fechou-se há demasiados anos), haverá ali muito para nos fazer suster a respiração. E não estou, obviamente, a falar de mim.
(e temos pena se não há transcrições da letra na internet e se a voz torturada do vocalista se presta a alguma cacofonia).
Riso, outro riso mais aberto,
Outro canto mais sentido,
Outros gestos, outra vozOutro golpe mais ousado,
Outro dia mais liberto,
Mais sereno e soalheiroOutro canto, mais revolto
Mais aceso, mais aceso
Outros espelhos, outra glóriaRumos, outros rumos e perigos,
Outro mar desconhecido,
Outras sombras, outra luz,Outros hinos, mais vibrantes,
Outros sonhos, e esperanças,
Outros céus e claridadesOutro canto mais revolto,
Mais aceso, mais aceso,
Outros prantos, outra glóriaFaremos do medo, ousadia,
Da noite, manhã claro
Do fado, outro destino
Do terror, alegria
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