Em Escuta


*Matias Damásio – Angola (País Novo)
Janeiro 15, 2010, 9:08 pm
Filed under: Matias Damásio | Etiquetas: , ,

Dos meus primeiros meses de vida conservei pouco mais que a marca da vacina da varíola. De resto, tirando um caixote de memórias cinzentas em papel fotográfico, uma cédula que atesta o meu local de nascimento, e uma boa dezena de histórias e sons em segunda mão, nada me ligava a esta terra.

Faz por estes dias um ano desde a tarde em que um bafo quente e húmido invadiu o avião de portas abertas, e África se escreveu a toda a minha volta.

O bafo quente da rua transformou-se em humidade suada da sala de emigração, em longa espera pela bagagem que tardava no meio do caos do, entretanto remodelado, Aeroporto Internacional.

Ainda guardo nos meus olhos esbugalhados o povo que dançava pelas ruas que hoje me são familiares, e que na altura tinham tudo de novo: cores, cheiros, sabores, sons e movimentos.

Dificilmente me irei esquecer do pregão lançado pelas zungueiras a vender peixe na minha primeira manhã em Luanda, da descoberta da terra vermelha onde a velocidade da natureza ultrapassa várias vezes a do jardineiro, ou da desconcertante regularidade das festas do musseke da encosta junto à Rainha Ginga.

A cidade, o país, foi crescendo em mim, esmagou-me na sua esquizofrenia, agigantou-me na esperança de construir futuros, consumiu-me nos dias para lá do limite, fez-me respirar de outra forma e ser capaz de olhar para a linha do horizonte para me pasmar com a capacidade deste céu se avermelhar.

O avião que hoje abrisse as portas para o meu regresso definitivo teria de ter espaço para levar o sorriso das crianças na rua, as gargalhadas dos colegas de trabalho, os abraços sentidos nas várias despedidas, as saudades mortas após cada viagem, as lágrimas vertidas nos momentos mais difíceis e as forças que se ganham após as batalhas, feridas saradas e cicatrizes mais fortes que o tecido original.

Se dos meus primeiros meses de vida guardo pouco mais que a marca da vacina da varíola, o mesmo não posso dizer destes últimos doze.

Vou contar-vos a história de um povo
Que tem tudo p’ra sorrir de novo
Vou falar-vos da velha coragem
Sacrifícios e muitas viagens

Vou falar do soldado tombado
Anulando o sorriso rasgado
Do kandengue que sofreu calado
E do povo que estava cansado

Vou falar desta terra de glórias
Nossa Angola de muitas memórias
Vou falar de um povo que quis
Finalmente agora feliz

Vou mostrar-vos uma nova terra
Agora sem guerra
Angola..do meu coração

Mwangolê
Não se deixa
Não vacila a hora é essa
Dá-me a tua mão
Para junto comigo bumbar
Nossa Angola juntos levantar
Angola

Vou falar do artista sofrido
Que pintou trinta anos de guerra
Finalmente hoje tem a honra
De pintar anos brancos de paz

Vou falar deste craque Mantorras
Dos golaços do nosso Akwá
Mano brincadeira tem hora
Paz e alegria aqui mora

Vou falar p’ra você que emigrou
Na esperança de vida melhor
Olha o teu povo te espera
nosso povo te espera

Vou falar do meu povo de novo
Sem esquecer nosso craque Sayovo
Vou falar-vos dos palancas negras
Os donos do meu coração

Vou falar do tuga que ficou
No gingar dessa negra angolana
P’rá Europa nunca mais voltou
Com a garina do Marçal ficou




Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.